Sou de uma época onde a paquera era valorizada.
Aquela sensação gostosa de ir nos lugares onde sabia que o outro estaria, o frio na barriga quando o avistava ao longe e a alegria de um sorriso recebido. Se a conversa durasse mais de alguns minutos, a noite era curta para rememorar cada gesto e palavra na tentativa de encontrar um sinal de interesse.
As conversas com as amigas giravam em torno de nossas paqueras do momento, e todas nós eramos experts em relacionamento, sabiamos decifrar o menor gesto como dica positiva ou negativa se a paquera teria futuro. Sabíamos ouvir...
A modalidade "ficar" já assustava nossos pais (eram felizes e não sabiam!!) mas o ficar era namorar por dia ou por uma noite e geralmente era precedido de paquera. Ficar significava andar de mãos dadas, beijar na boca e até uns amassos mais ousados, mas se tinha a sensação de que a pessoa era só sua por aquele período de tempo. O ficar era um ensaio para um possivel namoro.
Lembro de tudo isso com saudade, pois vivo em um mundo onde as pessoas pouco valorizam a arte da paquera. Tudo é feito com rapidez, dando a sensação de que não se pode perder tempo. Relacionamentos começam sem base e acabam na primeira "crise".
Ficar com alguém significa beijar. Beijar tantos quanto for possível. Beijar sem ao menos saber o nome, a idade, onde mora, de qua música gosta, qual é a cor preferida. Sem saber a cor dos olhos!
Sem lembranças para rememorar, sem frio na barriga para sentir, sem esperança de um novo encontro...
Talvez o fim da paquera seja também reflexo da mudança do mundo, onde temos que estar atentos a tantas informações, a tantas regras de conduta, beleza e corpo que não temos tempo para reparar no outro e sim fazer com que o outro nos perceba.
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